Literatura

Crise das Livrarias no Brasil

Desde 2014, o mercado livreiro no brasil tem sofrido bastante com diversas crises econômicas que se aglomeraram e tornaram-se verdadeiras bolas de neve de crises financeiras e administrativas. A partir destas dificuldades, o mercado de livros encolheu assustadoramente em apenas 1 ano, uma queda que foi uma surpresa para todos do ramo.

De acordo com Sérgio Herz, dono da livraria Cultura, uma das maiores livrarias do Brasil, em 2014 o mercado reduziu-se em aproximadamente 40%, algo que ninguém esperava. Neste ano, devido aos problemas financeiros que a Cultura enfrenta, Herz já teve que fechar 12 lojas físicas, apenas este ano, que havia começado com 30, restando, agora, apenas 18 em todo o país. O fechamento em definitivo destas lojas acarretou na demissão de mais de 150 funcionários por todo o brasil que, por sua vez, gerou um novo problema: a falta de pagamento dos direitos trabalhistas aos empregados, que organizaram protestos em frente às lojas de São Paulo e de Brasília(DF), piorando ainda mais a imagem e credibilidade destas instituições, o que agravou ainda mais os problemas que já vinham enfrentando.

Para piorar a situação, a Saraiva, o maior grupo de venda de livros do país, fechou recentemente 20 de suas 104 lojas físicas em diversos estados, por falta de sustentabilidade financeira, o que acrescentou uma preocupação a mais sobre a questão dos livros e hábito de leitura dos brasileiros, o que forçou o Governo Federal a entrar em cena e tentar, de alguma forma, reajustar estas empresas para poderem voltar firmes para o mercado.

No dia 26 de outubro, a justiça interveio na Livraria Cultura após a requisição de recuperação judicial pelos representantes da Livraria, que foi atendida pelo juiz Marcelo Barbosa Sacramone, da 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais do Foro Central Cível, que pretende reorganizar o plano estratégico da empresa de Herz e controlar os gastos para que a empresa possa mais uma vez se reerguer.

Um bom plano estratégico era o que parecia estar faltando no caso da Cultura, já que, desde 2011, a Livraria pediu 2 financiamentos ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social(BNDES) que, juntando todos os valores, chega a aproximadamente R$59,7 milhões de reais em empréstimos, que nunca foram devidamente pagos. Os empréstimos, segundo os pedidos, eram para melhoria da infraestrutura de suas lojas físicas e expansão de suas lojas virtuais.

No ano passado, a Cultura tomou controle das atividades da FNAC, grupo de livrarias de origem francesa aqui no Brasil, que investiu R$150 milhões de reais para que a Cultura renegociasse suas dívidas; o plano não deu certo e a Cultura fechou todas as lojas físicas da FNAC poucos meses depois, acumulando um prejuízo total de R$ 285,4 milhões de reais.

Um grande problema que as livrarias em queda criam é o efeito bola de neve, que começa a atingir não só a elas mas também às próprias editoras brasileiras que acabam perdendo muito com isso, já que a massa gigantesca das editoras no Brasil trabalham no estilo de consignação com as livrarias, ou seja, as editoras fornecem seus produtos(livros) para livrarias, que vendem os livros e, por sua vez, repassam parte do lucro para as editoras. Estima-se que a partir dessa consignação, as editoras retiram 80% de seus lucros anuais, dos quais estão em queda progressiva desde o início dos problemas na rede livreira em 2014. Desta forma, também iniciando uma crise financeira nas editoras.

Quando questionada sobre a crise no ramo livreiro, a editora ALEPH, uma editora brasileira de médio porte especializada na publicação de obras voltadas para a ficção-cientifica, respondeu “Fomos muito afetados(as editoras pequenas/médias são as que mais sofrem nesse cenário), mas estamos pensando aqui em meios de escapar e encontrar formas alternativas de continuar publicando os livros”; e ainda afirma que, mesmo com a dificuldade atual para manter-se no mercado, eles irão publicar novas obras, sejam elas novas edições de livros ou inéditos. De acordo com a editora, já está planejado para o primeiro semestre do ano que vem o lançamento de novos livros no Brasil, porém sem datas definidas, “podem ser que atrasem, mas elas sairão”.

Sobre o fechamento das 20 lojas físicas da Saraiva, a nota oficial é de que o setor de vendas online já alcançou cerca de 38,5% de seus lucros totais e, por isso, eles estão planejando um novo engajamento no setor do e-commerce, desvinculando a ideia da necessidade de ter livrarias físicas. Porém, esse fato pode ser apenas uma maquiagem para um problema muito maior, que já se provou presente na Europa e nos Estados Unidos onde as bibliotecas e livrarias estão em queda a anos, sobrevivendo apenas as mais famosas e se tornando em quase raridades. Esse evento se dá pela migração em grande escala de leitores que estão abandonando as livrarias e bibliotecas físicas para comprarem livros físicos apenas online, ou em formato digital, o E-book.

Estes problemas, em realidade, não começaram em 2014. Bem antes já havia dificuldades no mercado editorial no Brasil; o brasileiro lê pouco, essa é uma constatação que a muito se prova realidade. De acordo com dados do Instituto Paulo Montenegro, que realiza a pesquisa INAF(Indicador de Alfabetismo Funcional),  aproximadamente 29% da população brasileira é composta por analfabetos funcionais. O que foi indicado por Eduardo Saron, diretor do Itaú Cultural, que comanda a campanha nacional “Leia para uma criança. Isso muda o mundo”, de acordo com Saron, o número de leitores no Brasil é baixíssimo e, por consequência, o número de livros e tiragens também é baixo. Algo que já havia sido descrito pelo poeta brasileiro Mario Quintana, muitos anos atrás: “Os verdadeiros analfabetos são os que aprendem a ler e não leem”.

Recentemente, uma iniciativa social, que foi criada por um jovem de 20 anos de idade, em Buíque, cidade que se encontra na região rural de Pernambuco, deu novo fôlego e esperança para não só a comunidade de leitores, mas todos aqueles que viram a história.

Suetônio criou sozinho uma biblioteca para crianças em alto risco social, retirando crianças e adolescentes das ruas e as colocando em um ambiente protegido. Suetônio decidiu trabalhar como catador de materiais recicláveis e, com o dinheiro arrecadado, comprar lanches, brinquedos e manter a biblioteca que serve de espaço seguro para estas crianças e adolescentes, além de fornecer aulas de reforço escolar e ensinar outras crianças que nunca foram a escola a ler. Após a divulgação da história pela página, a livraria Cultura decidiu ajudar o projeto doando centenas de livros à biblioteca, fora outras entidades que também se sensibilizaram e decidiram ajudar o projeto.

Este tipo de história, de fato, é raro de ser encontrada no nosso país nos dias atuais. A cada dia que passa, as pessoas se importam menos com os livros, voltando suas atenções à outras mídias, principalmente as digitais que, a cada ano, batem novos recordes de usuários e nunca ameaçam diminuir. Projetos como o de Suetônio trazem consigo a memória do porquê que os livros ainda resistem às novas formas de entretenimento, pois eles são como lentes que nos mostram uma nova perspectiva do mundo, que mostram uma realidade diferente da qual estamos acostumados. 

“Livros são os mais silenciosos e constantes amigos; os mais acessíveis e sábios conselheiros; e os mais pacientes professores.”

Charles W. Elliot.

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