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Dimensão Contos – O Papa-Figo [Parte Única]

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Sete horas da noite e o pequeno João não sai do quarto. Normalmente, a essa altura, qualquer criança já teria batido um prato de cuscuz e estaria se preparando para ganhar a rua. Bom, a rua estava cheia de pequeninos, mas o João, que sempre foi um garoto ativo, parecia estar no modo descanso naquela noite.

Joãozinho, filho, não vai brincar? – Perguntou a mãe do garoto, espreitando à porta do quarto, preocupada. Sem resposta.

João estava “bem”. Fisicamente, ao menos. É que, naquele mesmo dia, mais cedo, ele havia invadido um terreno decrépito, que pertencia a um senhor maltrapilho, que juntava coisas antigas. Todos os garotos correram quando ouviram a voz do velho rangendo em protesto à invasão, menos João, que havia se enroscado numa pilha de arames.

Desesperado, o pequenino clamou pela ajuda dos amigos, mas ali era cada um por si. João se calou quando sentiu as mãos enrugadas e geladas agarrarem seus braços raquíticos, lhe tirando do emaranhado de arames. Os olhos profundos do velho maltrapilho penetraram seus olhos inocentes e as seguintes palavras saíram com um hálito de cebola: “Se eu lhe ver de novo na rua, vou mandar meu amigo, o papa-figo,  pegar você!”

O velho maltrapilho se chamava Lincoln e tudo que se sabia sobre ele é que era inglês, mas vivia ali há tanto tempo que desaprendera a falar o próprio idioma. Lincoln ameaçava crianças todos os dias. Com sua voz rasgada, ele se dizia amigo do papa-figo e que, se precisasse, ele viria e lhe ajudaria. O papa-figo de Lincoln não tinha forma física definida, mas era um comedor de fígados obcecado por crianças. Ele as capturava com um saco e, ainda vivas, abria a barriga com incisões cirúrgicas com as próprias unhas, retirava o fígado e as fazia assistir sua refeição enquanto morriam.

Lincoln havia perdido as contas de quantas crianças assustara em vida. Só aquela tarde, tinha estragado a infância de umas dez. Seu terreno era um prato cheio para aventuras. Era diferente, grande e bagunçado. Um espaço de solo infértil, cheio de bugigangas e gaiolas com pássaros magros; e os boatos que se formaram em cima dele, só tornavam tudo ainda mais atraente. Lincoln se dizia amigo do homem do saco, mas para as crianças ele era o próprio.

***

Todas as noites era possível ver, de longe, o velho maltrapilho através de sua janela. Ele ficava ali, sentando à mesa, com um pacote de bolachas em uma das mãos e uma xícara de café com leite em outra. Era o seu ritual noturno. As crianças não se atreviam a entrar em seu terreno a noite, pois era extremamente escuro. A única luz vinha de um candelabro que o seguia para onde fosse.

A bolacha esfarelava na mesa a cada mordida dada pelo velho. Um verdadeiro banquete para as formigas e baratas, que eram as únicas encarregadas pela limpeza do casebre. Normalmente, Lincoln terminaria aquela refeição, que para ele era o único momento feliz do dia, e se deitaria, mas alguma coisa lhe chamou atenção. O maltrapilho vinha ouvindo desde cedo um assobio estranho, o qual associara às crianças que o incomodavam, mas era tarde e, como disse, elas nem passavam perto do local a noite.

Quem ousa me importunar? – Gritou.

Foi aí que um gato preto pulou de um arbusto, o arranhou e saiu em disparada.

Gato idiota! – Protestou e entrou.

***

Na noite seguinte a que Lincoln lhe assustara, João recebeu a animada visita de seus amigos.

FRED, MARCOS, JUNINHO e… Quem é você? – Perguntou ao perceber um garoto novo entre seus colegas.

O garoto em questão aparecera na vizinhança minutos atrás mas não demorou a conquistar toda a molecada! Papa, como preferia ser chamado, ganhou esse apelido no orfanato da igreja, onde passou os primeiros anos de suas vida, por ser uma espécie de defensor da garotada, como um pai. Ele havia acabado de ser adotado por uma família que residia não muito longe dali e estava em busca de novos amigos.

Bom, João não estava, ainda, no seu melhor estado, mas de alguma forma sentiu-se atraído por Papa e decidiu sair e sentir a rua novamente.

Papa era um garoto diferente. Havia algo nele que era estranho e atraente ao mesmo tempo. Apesar da voz infantil, ele falava como adulto e saía pelas ruas guiando as crianças enquanto contava histórias alucinantes de sua época no orfanato, como quando ele “acabou com a raça” do Padre Mansur usando apenas um tubo de sabonete líquido e um pente de madeira. O padre em questão tinha encontros secretos com algumas das crianças do orfanato, encontros nada agradáveis, e isso precisava acabar.

Você deveria conhecer o Lincoln! – Disse uma das crianças ao ouvir uma das aventuras do Papa.

Você fala do velho que mora no casebre da esquina? – Perguntou o novato.

Sim!

A verdade é que Papa já havia tido um encontro com Lincoln e anunciara isso aos novos amigos, mas não entrou em detalhes. Ele simplesmente convidou os garotos a invadirem o terreno novamente e disse que lá eles entenderiam como fora esse encontro. Normalmente, as crianças hesitariam, afinal era noite, mas eles estavam com Papa, o garoto que sabia dizer as palavras corretas para convencer qualquer um das suas vontades e ideias. Então, eles foram.

Se quiserem saber como foi o meu encontro com o velho, prestem atenção na perna direita dele. – Disse Papa enquanto pulavam a cerca do quintal.

Fred, Marcos, Juninho e João tremiam a cada passo no terreno escuro e frio de Lincoln, mas Papa, que parecia enxergar tudo claro como a luz do dia, caminhava tranquilamente, a frente deles.

Vamos embora, ele deve tá dormindo. – Disse João.

Espera – Respondeu Papa, enquanto se abaixava para pegar uma pedra.

O que você vai fazer com essa pedra? – Perguntou Fred, balbuciando de medo.

Papa, então, preparou o pedaço de seixo em uma de suas mãos e disparou contra a janela do velho, que espatifou, produzindo um barulho ensurdecedor.

Quem tá aí? – Gritou Lincoln enquanto corria para fora do casebre.

As crianças ensaiaram uma corrida, mas Papa os convenceu a ficar mais um pouco.

Vocês querem saber o que aconteceu? Fiquem e olhem para a perna dele. – Disse.

Então as crianças, trêmulas, ficaram e fitaram os olhos na porta, que se abriu abruptamente, revelando o maltrapilho, que corria como podia em direção a eles.

Os quatro, então, dispararam e pularam a cerca. O último a pular, como de costume, foi João. Enquanto descia o cercado, com certa dificuldade, o garoto viu um pequeno arranhão em uma das pernas do velho. Certamente aquilo tinha a ver com o primeiro encontro em Lincoln e Papa, mas não significava nada para João, que só queria sair dali.

Cadê Papa? – Um deles gritou, mas ninguém quis esperar.

Daquele momento em diante, nunca mais eles veriam o garoto misterioso defensor de crianças.

***

No dia seguinte, já pela manhã, uma movimentação estranha em volta do casebre lhes chamaria atenção. Lincoln amanhecera o dia estirado no quintal de sua casa, com a barriga cuidadosamente aberta ao sol. O fígado havia sido removido. Nenhuma pista foi deixada no local, com exceção de um pedaço de papel velho que dizia: “nós nunca fomos amigos.”


Conto por Paulo Silva

Imagem por Joel Souza

 

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