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Madrugada Vermelha – Parte Final

Minha Noite de Terror

 

“Boi, boi, boi

Boi da cara preta. Pega esse menino que tem medo de careta…”

Eu me pergunto, filho, até que idade sua mãe cantou essa cantiga para te fazer dormir. Palavras densas numa voz tão doce como a dela. Confesso que eu também dormia. Eu nunca tive medo de careta, sempre fui duro como um touro, melhor, como o seu avô, mas o monstro das cantigas de ninar veio me buscar e ali estávamos, face a face.

Voltamos, então, ao encontro com os olhos amarelados…

Minha pele ainda pode sentir o pavor daquela madrugada vermelha. O cheiro da criatura ainda corre pelos meus pulmões e os seus ruídos rilham na minha mente. Nunca mais vou esquecer.

Não foi à toa que lembrei da cantiga. Não foi à toa que disse que ela veio atrás de mim. Era realmente ela. A criatura da cantiga de ninar passada de geração em geração. Seus passos eram congelantes. Sua pulsação, possível de sentir a metros de distância de tão intensa. Era uma criatura repleta de pelos negros e úmidos. Corpo como de um homem, rosto como de um boi. Olhava como se raciocinasse. Como se, a qualquer momento, fosse falar. Encará-la gerava um misto de sensações horríveis num curto espaço de tempo. Incrível como seu silêncio dizia tanto.

Um clarão no céu com um estrondo ensurdecedor anunciava a chegada de um toró. A chuva começou a cair, molhando ainda mais os pelos da criatura. De repente, me vi atraído por um de seus pés arrastando no chão. Era o anúncio de que viria para cima! Aquilo era uma caçada e eu estava determinado em ser o caçador, mas num primeiro momento eu tinha que correr. Então, o fiz.

Choques de adrenalina tomaram meu corpo. Corri mais do que corria quando era pequeno e tocava a campainha dos vizinhos. Mais do que quando pulava o muro dos outros para roubar frutas. Corri por mim. Corri pelo meu bairro. Corri por vocês.

Com passos largos eu tentava me distanciar da criatura, mas ela era mais rápida e mais forte do que eu e estava cada vez mais próxima. Nas minhas costas, eu sentia o calor do seu fungar. Meu cérebro estava em alerta!

Filho, quando se está fugindo de alguma coisa só há uma regra: procure um muro que possa pular ou uma árvore na qual possa subir. Atrás da igreja tinha as duas opções e eu escolhi a mais próxima: um pé de manga. Quando estava a apenas três passos de lá, senti que a criatura se aproximara o suficiente para me agarrar. Uma de suas garras enganchou na minha blusa, cortando um pouco da minha pele, mas não conseguindo me parar. Dei, então, o maior impulso da minha vida, segurei em dos troncos suspensos e subi o mais alto que pude e ali fiquei até colocar as ideias no lugar novamente.

***

 

Analisando a cena lá de cima, me dei conta de que o boi havia escorregado num caroço de manga que estava no chão. Ufa! Poderia ter sido eu!

A criatura cercava a árvore, sedenta. Eu precisava afastá-la dali. Vi na minha frente uma das mangas daquele pé. A tomei nas mãos, mirei no bicho e joguei. Errei da primeira vez, mas percebi que isso o incomodou, então continuei pegando as frutas e jogando. Acertei algumas delas, mas obtive o efeito contrário. O boi continuava lá, só que com ainda mais vigor.

Comecei a me desesperar, ou eu bolava alguma estratégia para alcançar meu objetivo: destruir o monstro; ou teria que esperar até o amanhecer. Eu não conseguia pensar em nada.

De repente, alguns cães surgiram, raivosos, encarando a coisa que rondava a árvore. Isso chamou sua atenção. Ela correu em direção aos animais. Foi aí que vi a cena grotesca com meus próprios olhos. Ela fez com um daqueles cães o que fizera com os mesmos que eu citei no começo dessa carta. Enquanto os outros corriam atemorizados, ela destroçava o coitado que tivera a infelicidade de estar mais próximo. A fera não parava. Com uma mão segurava a cara do animal contra o chão e com a outra esmagava suas patas. Tudo isso enquanto rasgava seu pescoço com os dentes. Um verdadeiro banho de sangue. Triste, mas era minha chance.

Desci com pressa, mas com muito cuidado. Tinha pouco tempo até ela voltar sua atenção para mim novamente, mas não podia me anunciar, ou eu estaria acabado.

Quando meus pés tocaram o solo, senti um arrepio que cruzou a minha alma. Era um território hostil. A criatura permanecia abaixada, focada no seu banquete. Então, lentamente, me aproximei. Um, dois, três passos e ela continuava lá. Estava tudo saindo como planejei. Filho, isso não é uma série, um filme, nem muito menos um conto de terror de um site de Cultura Pop, mas algo tinha que acontecer, só para dificultar, e aconteceu.

Quando estava a um passo de lançar o facão do seu avô na goela da infeliz, uma manga caiu do pé atrás de mim, chamando sua atenção. Ela logo olhou para trás. Se antes fui salvo por uma manga, agora estava prestes a ser morto por causa de outra. Mas, filho, quando a fera virou e decidiu correr atrás de mim novamente, ela acabou tropeçando numa bicicleta velha, jogada no chão, me dando a oportunidade perfeita! Com toda a agitação – eu não tinha me dado conta daquele bicicleta, mas que bom que ela estava ali. A fera conseguiu, ainda, se levantar, antes que a atacasse, mas já era tarde demais. Naquele momento, eu me projetei contra a coisa e lancei o facão com toda minha força, atingindo seu pescoço. O sangue jorrou no meu rosto, me fazendo fechar os olhos e perder alguns segundos de atenção. Nesse meio tempo, ela caiu sobre mim, ainda tentando me atacar, mas sem tanto vigor. Consegui me virar e ficar por cima, foi quando deferi mais alguns golpes, não lembro quantos, formando uma poça vermelha sobre o chão. Levantei o facão do meu pai para cima e chorei aliviado.

Fiquei de pé mais uma vez e contemplei o meu feito. Nascia ali um herói. É interessante como nos filmes é tudo tão eletrizante, com todos aqueles efeitos e a trilha musical. Na minha noite de terror eu só ouvi rosnados, barulho de chuva e o doce som do facão transpassando a pele de um monstro. Não tinha música de fundo nem efeitos especiais, era a vida real.

Após aquela noite eu recuperaria minha família e tudo voltaria ao normal. Mas, algo me dizia que eu não ficaria com a glória.

***

 

O dia começou a amanhecer. Ao badalar dos sinos da igreja, eu vi o monstro sumir da minha frente. Num piscar de olhos, o corpo peludo e úmido deu lugar a uma pele frágil e escalvada. Não havia mais um rosto animalesco, era um apenas um homem, banhado em seu próprio sangue. A criatura tinha nome e endereço. Era Jorge Batalha. Meu amigo. O mesmo que havia bebido comigo uma noite antes e o mesmo que rondava o bairro nas madrugadas como guarda. Jorge era a criatura. Ele se transformava noite sim, noite não, e aterrorizava nosso bairro. Conscientemente ou não, era ele quem estava destruindo a minha vida. Logo, o sabor da vitória tornou-se amargo, dando lugar a uma angústia enorme, que dividia espaço com o alívio de ter acabado com tudo. Era meu amigo caído ali no chão, mas no fundo eu sabia tudo que tinha visto e que havia nobreza no meu objetivo.

Por outro lado, sabia também que ninguém entenderia. Que minha vida continuaria de mal a pior. Que eu seria preso e passaria o resto dos meus dias atrás das grades. Isso se não fosse linchado ali mesmo pelos moradores. Você e sua mãe lembrariam de mim como um assassino. Um homem doente. Mas, filho, eu não sou o que dizem. Eu sou um herói. Eu salvei nosso bairro, salvei vocês. Barganhei minha vida, mas devolvi a tranquilidade sua e de sua mãe. Tudo que peço é que acredite em mim.

FIM.

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