Críticas, Literatura, Séries

(Des)encanto e a (In)felicidade Humana

“O sofrimento é dúvida, é negação, e que palácio de cristal seria esse se nele se pudesse ter dúvidas? E, no entanto, tenho certeza que o homem nunca recusará o verdadeiro sofrimento, ou seja, a destruição e o caos. O sofrimento, afinal, é a única causa da consciência”.

Fiódor Dostoiévski.

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Matt Groening, autor da nova animação da Netflix, (Des)encanto, também é o autor responsável pelas animações Os Simpsons e Futurama, as quais são repletas de duras críticas à forma como nós, humanos, vivemos. É até mesmo desafiador assistir um episódio de alguma dessas animações e não encontrar alguma crítica social, religiosa ou pessoal. Matt Groening se fez famoso, em boa parte, por essa sua característica de humor crítico, ácido e até de humor negro em todas as suas histórias.

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Então, quando soube da nova animação que o mesmo estava escrevendo, já esesperava por algo no mesmo tom: algo muito bem-humorado e escrachado, porém reflexivo. Não foi necessário esperar muito para ver que esta animação se difere um pouco de suas outras, afinal essa transmite um maior sentimento de continuidade direta, e não apenas episódios com histórias, em sua maioria, isoladas umas das outras.

O que mais me chamou atenção em (Des)encanto foi algo apresentado já no início da história: o mundo mágico dos Elfos, onde o personagem Elfo vivia. A grande característica deste local, e a razão por ser chamado de “mágico”, é porque lá, só há alegria, sem espaço para a tristeza, é um paraíso na terra, um local onde todos são felizes o tempo todo, trabalhando na fabricação de doces e cantando canções alegres e de alto astral. Porém, toda essa felicidade acaba tendo efeito contrário em Elfo. Ele acaba se tornando infeliz e revolto por estar rodeado por felicidade 24h por dia, 7 dias por semana, o que não é compreendido pelos demais elfos, que o tratam até como um divergente.

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Em decisão própria, Elfo sai de seu mundo mágico e feliz e vai para o mundo dos humanos, onde há sofrimento de sobra, algo que ele ansiava por experimentar e, logo que experimentou, não foi capaz de compreende-lo,  tratando-o com felicidade, e, assim, causando estranhamento naqueles que já não mais suportavam o sofrimento e procuravam um brilho sequer de felicidade.

Por outro lado, a protagonista da história, Bean, uma princesa de um reino distante, compartilha a mesma angústia de Elfo: uma pessoa com uma vida boa, sem preocupações alguma e com todos os motivos e incentivos para ter uma vida nada menos que feliz, se encontra justamente com o seu espirito coberto de infelicidade e, por isso, comumente vive escapando para se aventurar e esquecer de sua vida repleta de alegria.

Certamente, esse aspecto de Bean e Elfo pode ser muito bem visto como egoísmo e, por isso, serem mal compreendidos por pessoas que estão do lado oposto, ou seja, aqueles que apenas experimentam o sofrimento e buscam a todo custo um pouco de alegria, como no caso de um casal de camponeses que recepcionam Elfo, assim que ele chegou no mundo humano e o servem com uma comida dita por eles “indigna e ruim”, porém Elfo elogia a comida e a melhor comida que ele já comeu, muito diferente de apenas doces, que o mesmo comia o tempo todo em seu mundo, o que é tido pelos camponeses como um insulto e expulsam Elfo de sua casa, afinal, “merecemos ser açoitados por nossa pobreza e não elogiados” disse o marido.

De todas as críticas e “alfinetadas” que Matt Groening colocou nesta nova animação, esta me chamou mais a atenção, pois há algo que Fiódor Dostoiévski, famoso escritor russo escreveu em seu livro Memórias do Subsolo (Notas do Subsolo / Diário do Subsolo, o titulo vária um pouco entre as editoras brasileiras), “O sofrimento é dúvida é negação, e que palácio de cristal seria esse se nele se pudesse ter dúvidas? E, no entanto, tenho certeza que o homem nunca recusará o verdadeiro sofrimento, ou seja, a destruição e o caos. O sofrimento, afinal, é a única causa da consciência”.

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Esse trecho em particular do livro Memórias  do Subsolo de Dostoiévski, basicamente responde a questão sobre a divergência de Elfo e Bean para com o desejo do sofrimento e afastamento da alegria, não é que ambos sejam masoquistas e por isso queiram sofrer, mas sim, porque do sofrimento, é que a consciência humana nasce e sem o sofrimento, a consciência não pode nascer e evoluir, o que causa então o sofrimento por viver apenas em alegria.

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Em paralelo, podemos também pegar o personagem O Comediante, da H.Q e filme Watchmen, este personagem assim como Bean e Elfo, pareciam felizes com o seu modo de viver, mas o que lhes trazia tanta alegria, foi o causador de suas infelicidades mais amargas e uma  das melhores explicações para este fenômeno, foi a piada que o Comediante conta: “Ouvi uma piada uma vez: Um homem vai ao médico, diz que está deprimido. Diz que a vida parece dura e cruel. Conta que se sente só num mundo ameaçador onde o que se anuncia é vago e incerto.

O médico diz: “O tratamento é simples. O grande palhaço Pagliacci está na cidade, assista ao espetáculo. Isso deve animá-lo.”

O homem se desfaz em lágrimas. E diz: “Mas, doutor… Eu sou o Pagliacci.”

Boa piada. Todo mundo ri. Rufam os tambores. Desce o pano.”

É um pouco confuso a relação de alegria e sofrimento que estes personagens carregam, mas isto, é o que faz deles, serem tão curiosos, ambos (Bean e Elfo) para se sentirem vivos e reconhecerem a si mesmos, buscaram na aventura, não a glória e felicidade, mas sim as dificuldades e sofrimento que a aventura traz, pois por mais penoso o caminho é, mais recompensadora é a vitória.

 

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