Contos, Sem categoria

Madrugada Vermelha – Parte 3

De Cara com a Fera

 

Meus olhos abriram devagar enquanto minha cabeça latejava com as batidas de sua mãe na porta do quarto. Me dei conta de que havia deixado vocês trancados lá em cima, então me levantei e fui até lá.

Calma amor, tô chegando! – respondi.

Subi as escadas lentamente. Parece que havia dez toneladas em cada perna. Eu estava exausto.

Quando, enfim, cheguei ao primeiro andar da casa, cacei a chave nos meus bolsos e abri o quarto. Sua mãe saiu de lá em polvorosa. Você estava nos braços dela, chorando. Nossa, minha cabeça estava muito densa naquela manhã.

Por que você trancou a gente, Dimas? Eu tô gritando faz é tempo! Onde você tava?

– Eu vou explicar tudo, mas antes eu preciso de um banho – ­respondi.

Foi a primeira vez que vi sua mãe daquele jeito. Ela sempre foi uma mulher tranquila, mas a situação fugia do normal, então era esperado que ela estivesse assim. Depois da ducha, desci as escadas e a encontrei chorando. Ela encarava o cenário que havia ficado ali, com o sofá fora do lugar e a porta danificada e depois voltou os olhos para mim. Sua mãe não conseguiu dizer nada naquele momento, então eu pedi que ela se sentasse e comecei a falar. Expliquei tudo o que havia acontecido, enquanto ela ouvia perplexa. Falei por cerca de dez minutos e enquanto rememorava tudo aquilo, meu coração acelerava e meu corpo tremia.

Rosa percebeu que eu não estava bem. Bem mais do que a história – que era difícil de se acreditar – o meu estado é que a deixava perplexa. Após me ouvir, ela permaneceu calada por alguns segundos, só me encarando. Foram segundos difíceis. A mulher que eu amava me lançando um olhar de dúvida.

Amor, você precisa de ajuda. – Foi tudo que ela conseguiu dizer, então se levantou e subiu.

***

 

O relógio indicava sete da manhã. Era hora de trabalhar.

Segui para o mercadinho com a simples e dura frase de sua mãe nas costas. Segui cabisbaixo pelas ruas, me sentindo deslocado. Não percebi rostos ou vozes enquanto caminhava. Se alguém falou comigo, certamente tomou o que hoje vocês chamam de vácuo.

Chegando no mercadinho, entrei pelos fundos, peguei uma vassoura e iniciei meu trabalho. Com a piaçaba nas mãos, varri toda a sujeira da calçada principal. Me vi concentrado no som que as cerdas da vassoura produziam em contato com o concreto. Era como se arranhassem meus ouvidos. Estranhamente, eu senti prazer naquela zoada. Não era para menos, afinal minha mente estava uma bagunça, qualquer barulho que sobrepusesse a confusão dentro de mim seria bem-vindo.

Dimas, tu tá bem!!?? –

Fui interrompido por um colega que me viu ofegante, esfregando com força a vassoura no chão. Eu não estava bem.

Cara, por que você não vai pra casa descansar? – Ele continuou.

Mas eu precisava continuar me distraindo.

Entrei à procura de uma nova atividade. Rodei um pouco até que, enfim, vi que uns tomates precisavam de reposição no estoque. Então, o fiz.

Passando os tomates, um a um, pela minha vista eu me vi concentrado novamente. Os tomates começam quase sem cor, ficam verdes, amarelados, roxeados e, enfim, vermelhos. Eu os posicionava de acordo com a fase em que cada um estivesse. Os mais novos durariam mais tempo ali, então os colocava atrás. Os mais antigos, mais próximos de apodrecer, ficavam expostos, para que fossem comprados o mais rápido possível. Naquele momento, eu era como um daqueles tomates vermelhos. Várias partes de mim estavam podres e eu estava exposto. Um simples toque poderia estourar tudo dentro de mim e foi o que aconteceu em seguida.

Onde ficam as laranjas cravo? –

­Me virei e vi um homem de meia idade esperando por uma resposta. Apontei o dedo para as laranjas e voltei para o meu trabalho.

– Mas isso não é laranja cravo – Ele continuou.

É sim. – Retruquei.

Não muito contente com a minha reação, aquele homem começou a falar repetidamente e as pessoas em volta começaram a olhar para a gente. Olhei para a boca dele enquanto ela se mexia, mas tudo que ouvia eram palavras jogadas como “laranja”, “não é”, “cravo”, “me respeite”. Ele gritava tanto que salivava, mas eu não estava preocupado com isso, até que ele me tocou.

Ele me deu um empurrãozinho de leve, mas eu, por impulso, respondi com toda minha força, o jogando contra a pilha de laranjas. Ele havia estourado um tomate podre.

Filho, preciso dizer que perdi o emprego?

***

 

Aos poucos, tudo estava desmoronando. Eu não tinha coragem de olhar nos olhos da sua mãe e dizer que não tinha mais emprego, afinal você tinha acabado de nascer, o que faríamos? Então, eu simplesmente evitei nossa casa durante todo o dia. Em vez disso, perambulei pelas ruas da Várzea.

Dimas! Chega aí, homi – Gritaram.

Olhei e vi Jorge, um velho amigo. Ele estava tomando uma pinga na barraca no Zé, que ficava bem ao lado do famoso Casarão, onde desovaram as primeiras vítimas da Coisa que estava atormentando o bairro. Me aproximei do meu amigo e, quando me dei conta, estava tombando pelas ruas até chegar em casa.

Ro­­­sss.. Ross.. Rosa? – As palavras se enroscavam enquanto tentava chamar sua mãe, mesmo assim ela me ouviu e abriu a porta.

Quando entrei, caí no sofá e tudo do que me lembro é de ouvi-la gritar algumas palavras comigo, então dormi.

***

 

Quando despertei, por volta das 10h do outro dia, não conseguia lembrar de muita coisa do dia anterior. Com exceção, claro, da minha demissão. Olhei em todos os cômodos do velho casebre, mas não achei você nem sua mãe. As portas do armário estavam abertas e, lá, só estavam minhas roupas. Na cabeceira do sofá havia um bilhete.

“Dimas, a gente tem um filho agora. Você nunca foi assim e do nada começou a enlouquecer. Seu amigo, Jorge, ficou te olhando da esquina enquanto você vinha pra casa. Falei com ele e ele me contou que você agora está desempregado. A culpa é nossa? Você não queria ter esse filho? O que tá acontecendo com você? Adeus.”

A primeira lágrima marcou aquele pedaço de papel. Depois dela, todas as outras caíram e eu me vi de joelhos, em prantos. Amassei aquele folheto com toda a raiva que eu sentia naquele momento e o joguei distante de mim.

– A culpa não é de vocês, meu amor. É dele! – ­eu disse.

***

 

Se alguém me visse naquele estado – e se me visse fazer o que eu planejava – certamente me acharia louco. Mas, filho, eu nunca estive tão lúcido na minha vida quanto naquela manhã. Eu estava decidido a acabar com todo aquele sofrimento. Na próxima madrugada, eu acertaria as contas com seja lá o que fosse que vagava pelas madrugadas do bairro e roubava a minha vida.

Me aguarde! – Eu disse enquanto lembrava do vislumbre que tive pela fresta da porta duas noites atrás.

Seu avô havia me dado um facão de presente quando me casei com sua mãe. Um caba macho tem que tá preparado pra tudo. Ele dizia. Papai vendia peixes na praça. Era conhecido como o facão mais amolado do quarteirão. Ele só precisa deslizar a faca sobre as escamas dos peixes e elas saíam como cascas de banana. Naquela madrugada, eu enfiaria o legado da minha família no bucho da peste que rondava a Várzea, recuperaria minha paz e vocês voltariam para casa.

***

 

02:00. Nada de bom acontece depois das duas da manhã. Era o que dizia sua avó. Ela estava correta. Às duas da manhã, não havia vida inteligente no bairro. Era perfeito. Com o facão na cintura, coberto pela minha camisa, comecei a andar. Acenei para o guarda do apito. Ele me olhou estranho, mas seguiu. Andei por uma hora, mas nem sinal da fera. Passei pela praça, sentei em um dos bancos gelados e fiquei ali, pensativo. Remexi as areias sob os meus pés e, quando me dei conta, minhas lágrimas estavam caindo. Na minha mente, uma pergunta ecoava: como podem as coisas desmoronarem tão rápido?

Me levantei. Passei as mãos no rosto. Sacudi a poeira e voltei a seguir. Pouco antes de sair da praça, ouvi um som. O som era bem baixinho. Vinha de longe. Porém, não me era estranho. Eu já tinha escutado aquilo em algum lugar. Ouvi novamente, ainda baixinho. Me concentrei e continuei ouvindo até que reconheci.

Era o “uivo estranho” novamente!

A criatura que eu elegi como arqui-inimiga tinha voltado ao bairro. O momento pelo qual esperei por todo o dia havia chegado, então eu corri. O mais depressa que pude, fui ao encontro do “uivo”. Comecei a entrar e sair rapidamente das ruas. Umas mais largas, outras nem tanto. Meu pé ficou num buraco. Numa canaleta, para ser mais preciso. Que droga. Pensei. Tirei meu pé de lá, ainda sujo de lama, e voltei a correr. Saí numa das principais ruas da Várzea, onde ficava a Igreja. Cansado, parei. Parei bem em frente da Catedral e comecei a olhar em volta desesperado.

Cadê você, seu monstro? Venha resolver nossas coisas, vá! – Eu gritava atordoado.

Nem sinal da coisa.

Depois de tanto gritar e rodar, sentei na calçada da igreja e comecei a me lamentar. Mas, quando eu menos esperava, ouvi um barulho de pegadas. Não era tão alto, pois o chão era de concreto, mas estava muito próximo. Levantei assustado, virei e me deparei com um par de olhos amarelos fitos em mim. Eu estava de cara com a fera.

Continua


O conto acima é parte da coletânea Contos de Várzea, do escritor pernambucano Paulo Nascimento. Contos de Várzea trata-se de um compilado de curtas histórias imaginadas em um dos bairros mais populares – e populosos – do Recife, a Várzea. Os contos misturam ação, drama, suspense e terror e tem como objetivo aproximar elementos tão amados da Cultura Pop com a cultura local.

Sobre Madrugada Vermelha: Há 18 anos, Dimas foi preso, acusado de uma série de crimes que chocou o mundo. Embora assuma a autoria de um deles, ele acredita que o que fez salvou o bairro, quiçá o mundo, de um mal terrível. Dimas, então, decide escrever ao seu filho uma carta, na qual conta sua versão dos fatos. Mas será que ele está, realmente, falando a verdade?

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