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Madrugada Vermelha – Parte 2

Parte 2 – A Noite Mais Estranha

Beco escuro. Rua vazia. É madrugada e eu suo frio. Dentro de mim, a sensação de estar sendo seguido. A cada passo dado, ouço outro logo em seguida, como se eles ecoassem. Atônito, não consigo olhar para trás. Parece que alguém, ou alguma coisa, está escondido no cantinho dos meus olhos. No limite do que posso enxergar. De repente, um grito. Num choque de adrenalina, olho para trás. É aí que me deparo com os olhos frios do cadáver que aparecera no bairro de pé a me encarar.

Todas as noites eu tinha esse pesadelo. Aparentemente, todos haviam seguido, mais uma vez, com suas vidas, mas parecia que eu seria o único que não conseguiria esse feito. Parecia que eu seria sempre perturbado pelo que tinha visto. Como eles podiam trabalhar, sorrir e manter conversas normais e civilizadas diante de tudo que havíamos passado pouco tempo atrás? Eu não compreendia até que uma pequena bola de futebol veio rolando e estacionou nos meus pés enquanto varria a calçada do mercadinho em que trabalhava.

Joga pra cá, tio! – alguém gritou.

Olhei e vi as crianças jogando na rua, com duas barrinhas de pedra, como eu costumava fazer na idade deles. Tomei a bola em minhas mãos, joguei para os garotos e sorri enquanto eles agradeciam. Foi aí que percebi que ninguém tinha superado, por completo, o que havia acontecido, mas que era preciso seguir em frente. Não necessariamente por mim, mas pelo bem geral. Não importa o que aconteça, a vida continua, filho, e temos que manter a esperança por dias melhores.

Como eu queria que a história acabasse aqui…

 

***

Se todos à minha volta tinham seguido em frente, eu precisava, ao menos, tentar. Filho, nós somos seres adaptáveis, nossa história está aí para provar isso. Então, com sorrisos fingidos, apertos de mão ensaiados e uma firmeza compelida, eu me adaptei. Talvez se eles me vissem como eu os via, eu passasse a acreditar na minha mentira e a vida se tornasse mais fácil para mim. Entretanto, todas as noites a realidade me visitava. Travestida de cadáver, por trás dos olhos mais frios e sofridos que já vi em toda a minha vida, ela roubava meu descanso. Caía por terra toda a farsa e restava apenas um homem frágil no canto da cama chorando como uma criança. Eu já não dormia mais.

 

***

Sentado na cama, olhei para o relógio. 00:34. A tensão escorria pelo rosto em gotas frias. O travesseiro, molhado. Desci as escadas. No fundo, um alívio por estar acordado. Abri a geladeira e, sem perceber, passei minutos encarando uma bandeja de ovos. De onde vem esse costume, não sei, mas é terapêutico abrir a geladeira e encarar o que tem dentro, mesmo sem a mínima intenção de mexer ali. Apesar disso, eu mexi. Peguei uma garrafa d’água para me fazer companhia e sentei no sofá.

Ali fiquei por alguns minutos e tentei ocupar minha mente com coisas aleatórias. As mais diversas cenas transitaram por minha mente. Lembrei de coisas da infância. De como o bairro era diferente, com menos asfalto e mais terra. Menos muros e mais cercados. A vida, de certa forma era mais fácil. De repente, eu estava soltando pipa, jogando pião, correndo pela vizinhança. Um sorriso bobo tomou conta do meu rosto e eu me senti simples. Acho que esse é o maior sentimento que um homem pode ter. Simplicidade. Essa foi, com certeza, a última vez que eu senti algo bom e reconfortante na minha vida. Alguns segundos a mais e, logo, fui interrompido por um barulho estranho. Uma espécie de uivo. Não como um lobo. Era algo medonho e impossível de se descrever. No mesmo instante, a garrafa em minhas mãos, que era de vidro, espatifou no chão.

Querido? O que houve? – sua mãe me interrogou da escada, com os olhos forçadamente abertos.

 Não é nada demais, amor. Volte a dormir ­­–

Peguei um pano de chão e uma vassoura para limpar a bagunça. Fui até o quintal e despojei os cacos de vidro fora. Era uma noite fria. Típica do clima imprevisível de nossa cidade. Dei meia volta e quando toquei na maçaneta para entrar em casa ouvi, novamente, o “uivo”. Naquele momento, fui tomado por uma corrente gelada que subiu da ponta da barriga e entalou na minha garganta. Por uma fração de segundos eu congelei. Quando, enfim, tornei aos meus movimentos, entrei o mais rápido possível em casa, sentindo um forte desespero dentro de mim. O que me deixou mais perplexo foi que, dessa vez, o som parecia mais próximo. E realmente estava.

Assim que entrei, girei a chave na porta. Mesmo trancado, não me sentia seguro. Tomado pelo desespero, arrastei o pequeno sofá que tínhamos e o encostei na porta. Se alguém tentasse entrar, não conseguiria. Comecei a andar em rápidos passos por todos os cômodos da casa. Eu ia e voltava. Olhava para o relógio, ele parecia parado, mas o tic-tac do ponteiro não cessava. Era como se quisesse me torturar. Fui até a cozinha e tomei uma faca de serra em minhas mãos. No que ela me ajudaria? Não sei, mas eu precisava de algo que me fizesse pensar que estava seguro.

Os cachorros na rua começaram a latir. Isso não era tão incomum, mas entre os latidos caninos eu ouvi, outra vez, aquele som. Dessa vez, passando na frente da minha casa, acelerando ainda mais o meu coração. Subi as escadas, tranquei o quarto em que dormíamos eu, você e sua mãe. Depois desci e deixei vocês lá. Ao menos vocês estariam seguros. Em seguida, me pus diante da porta, ainda trancada com o auxílio do sofá e apontei a faca para frente. Senti algo batendo nas paredes. Algo forte. Ouvi um brusco rosnado e logo depois batidas na porta.

Uma, duas, três batidas.

Quem tá aí? –­ Gritei. Sem resposta.

A coisa batia cada vez mais forte. Parecia atraída pelo meu medo. Uma fresta começou a aparecer no canto direito da porta e eu pude vislumbrar o que me parecia um ser peludo e muito grande!

Não, filho. Não era um lobisomem.

Sai daqui, seu monstro desgraçado! –

Enquanto gritava, me projetei para a frente, segurei a faca com o máximo de força que conseguia e esperei a criatura entrar, mas algo aconteceu e ela desistiu de mim.

Foi um silvo. Um silvo de apito de um dos guardas que vigiavam o bairro. Na época, tínhamos esses guardas que passavam a madrugada vasculhando as ruas. Eles apitavam três vezes por noite, indicando que estavam acordados e trabalhando. O primeiro silvo, às 00:00; o segundo, às 03:00; e o terceiro, às 05:00.

Para a minha sorte, aquela foi o terceiro silvo. Percebi isso quando um raio de sol entrou pela fresta da porta e beijou o meu rosto. Ouvi os passos do ser indo embora apressadamente. Não sei se corria do sol ou se ia atrás do guarda que passara. De qualquer maneira, eu não conseguiria ir lá fora checar. Naquele momento, eu só queria deitar e dormir. Foi o que fiz. Ali mesmo, no chão, com a cabeça recostada sobre o sofá que segurara a porta, eu adormeci, esperando esquecer a noite mais estranha da minha vida.

Continua…


O conto acima é parte da coletânea Contos de Várzea, do escritor pernambucano Paulo Nascimento. Contos de Várzea trata-se de um compilado de curtas histórias imaginadas em um dos bairros mais populares – e populosos – do Recife, a Várzea. Os contos misturam ação, drama, suspense e terror e tem como objetivo aproximar elementos tão amados da Cultura Pop com a cultura local.

Sobre Madrugada Vermelha: Há 18 anos, Dimas foi preso, acusado de uma série de crimes que chocou o mundo. Embora assuma a autoria de um deles, ele acredita que o que fez salvou o bairro, quiçá o mundo, de um mal terrível. Dimas, então, decide escrever ao seu filho uma carta, na qual conta sua versão dos fatos. Mas será que ele está, realmente, falando a verdade?

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