Literatura, Sem categoria

Madrugada Vermelha – Parte I

Parte I – Rasgados

Sexta-feira 13, meia-noite. Este seria o pano de fundo perfeito para uma história de terror, mas histórias reais não dependem de maquiagem poética. Não importa quando ou onde, elas simplesmente acontecem.

Ajoelhado sob a tempestade, assim me encontraram. Os pingos da chuva despencavam como pregos, furando minha pele. A água caía num barulho ensurdecedor, levando embora minhas lágrimas e o sangue do homem que acabara de matar. Sim, eu o matei. Mas, filho, no final desta carta você vai entender que, apesar de responsável, eu não sou culpado como todos pensam. Se hoje sou odiado, só há um motivo para isso: eu quis o bem de todos, quis salvá-los do mal que atormentava nosso bairro, e eu consegui.

Há 18 anos, quando o sol não nascia quadrado para mim, vivíamos bem. Eu, você e sua mãe. Tínhamos pouco, mas tínhamos o suficiente. Eu trabalhava como um cão, mas no final do dia, quando chegava em casa e via você e Rosa me esperando de braços abertos, me sentia o rei do mundo. Você, apesar de tão pequeno, parecia entender tudo o que acontecia. Eram dias lindos. Porém, como dizia a sua biza: alegria de pobre dura pouco; seria cômico se não fosse trágico.

Era Carnaval e o Recife estava em festa. Não costumávamos participar, mas sua mãe adorava observar os blocos passarem. Foi o que pensei que ela estivesse fazendo quando acordei e não a vi na cama. Rosa havia ido lá fora, mas não para observar um novo bloco. Os sons que eu ouvia eram de preocupação, não de alegria. Então, lavei o rosto, pus a primeira camisa que achei na gaveta do guarda-roupas e corri para a rua.

Lá fora, os vizinhos estavam reunidos em círculo, como numa ciranda. Todos com o mesmo aspecto confuso no rosto. Algo no centro daquele círculo os deixava perplexos e eu precisava saber o que era.

Rosa – gritei – O que tá acontecendo aqui?

Amor, cê precisa ver isso. Corre!

Ouvindo sua mãe, espreitei entre um e outro vizinho, procurando alguma brecha. Entre as várias pernas na minha frente, consegui vislumbrar o que me parecia alguns animais caídos.

Chega pra lá, Zé! – Empurrei um amigo até que consegui, enfim, ter uma clara visão de uma das piores cenas que já avistei em toda minha vida.

Eram cachorros. Três cachorros. Todos dilacerados, com as cabeças separadas do corpo. Eles tiveram seus pescoços rasgados e estavam praticamente sem carne. Só havia alguns pedaços de pele, ossos quebrados e as cabeças jogadas.

Entre murmúrios de pessoas perplexas uma pergunta ecoava: Quem ou o que havia feito aquilo? Teria sido um animal maior? Uma pessoa? Um monstro!?

Estávamos numa área urbana e ainda que estivéssemos numa área rural, aquela cena era de extrema violência, não dava pra imaginar que tipo de animal havia feito aquilo, se é que um animal tivesse sido o responsável.

Talvez tenha sido um ritual macabro! – Alguém disse.

Mas até essa teoria parecia difícil de ser aceita, afinal aqueles vira-latas tinham sido rasgados por mordidas! A monstruosidade da cena nos impedia de focar em qualquer teoria que reverberasse ali. Não existia explicação lógica para a mente humana. Ao menos não para aquelas mentes humanas.

 

***

Os restos daqueles animais foram levados para o terreno abandonado do Casarão da Várzea e o dia da população seguiu. Como dizem os antigos, notícia ruim corre rápido e, logo, todos estavam comentando o que acontecera. Não demorou e as emissoras locais voltaram suas atenções pro nosso bairro. Populares curiosos se reuniam em volta das câmeras. Os mais corajosos davam entrevistas. Todos queriam falar sobre os animais estripados da Várzea. As autoridades também tomaram seu espaço. Policiais, cientistas, pesquisadores, todos queriam a sua fatia.

Alguns dias se passaram e as coisas começaram a se acalmar. Nas ruas, nada de câmeras, fitas de isolamento ou comentários. Mais uma vez, o ser humano seguia seu curso natural, tocando em frente suas vidas. Porém, mais uma manhã estranha, essa já distante do Carnaval, e as pessoas, de novo, estavam nas ruas.

Mais animais! – imaginei.

Deixei sua mãe na cama e saí para olhar.

Dessa vez, mais do que perplexidade, encontrei terror no olhar daquelas pessoas. Muitos estavam em prantos, tremendo incessantemente, outros desmaiavam e os mais fortes permaneciam de pé em volta de alguma coisa, congelados.

Eu já não precisava mais espreitar nem empurrar ninguém. A maioria deles não queria olhar o que ali estava. Então, me aproximei e, logo, dei as costas. Filho, o que vi naquela manhã arrepiou cada pelo do meu corpo e me manteve acordado pelos próximos dias.

Era um cadáver humano!

Eu não podia crer no que meus olhos haviam visto. O corpo estava nas mesmas condições dos animais que havíamos encontrado semanas atrás. Não peguei muitos detalhes, afinal, assim como a maioria, não consegui encarar aquela cena, mas na fração de segundos que me deparei com aquilo, meus olhos fitaram os olhos daquele homem, ainda abertos, arregalados, e eu pude sentir toda a frieza vinda do terror que ele, certamente, sentiu enquanto era rasgado. A expressão em sua face parecia congelada no tempo, exatamente no momento em que era violado. Dizem que a morte é uma libertação, mas aquele homem parecia estar preso num loop infinito, revivendo, instante a instante, o momento que o levou aquele estado. Quando fitei aqueles olhos, senti uma sensação estranha e de uma coisa eu sabia: não era desse mundo.

Parte 2 – https://goo.gl/rSL9wT

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O conto acima é parte da coletânea Contos de Várzea, do escritor pernambucano Paulo Nascimento. Contos de Várzea trata-se de um compilado de curtas histórias imaginadas em um dos bairros mais populares – e populosos – do Recife, a Várzea. Os contos misturam ação, drama, suspense e terror e tem como objetivo aproximar elementos tão amados da Cultura Pop com a cultura local.

Sobre Madrugada Vermelha: Há 18 anos, Dimas foi preso, acusado de uma série de crimes que chocou o mundo. Embora assuma a autoria de um deles, ele acredita que o que fez salvou o bairro, quiçá o mundo, de um mal terrível. Dimas, então, decide escrever ao seu filho uma carta, na qual conta sua versão dos fatos. Mas será que ele está, realmente, falando a verdade?

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