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Dimensão Contos – Relato da Criação[Parte 4]

PARTE 4

Fuligem e gritos preencheram o vazio, jamais imaginei que houvesse um lugar como aquele na Criação. Ao meu redor, os Celestes agonizavam enquanto seus pares de asas eram consumidas pelo fogo, olhei para as minhas temendo sentir a dor que assolavam meus iguais, entretanto elas não cremavam, mas sim eram tomadas por cinzas e sombras. Deixávamos de ser Celestes, éramos Angelos Apostaticos surgidos no abismo.

Reconheci a figura raquítica se aproximando com cautela, era Samael, o filho mais velho de Adamá e Lilith que fugira com sua mãe antes da criação dos Rupaves e Sypaves. Sem mencionar uma única palavra Samael nos guiou pelo abismo até o seu novo líder. Ao seu lado Lilith permanecia irreconhecível, machucada e quase inconsciente, gerando hordas de demônios dos seus pesadelos, lágrimas, entranhas e sangue.

— Seja bem-vindo, expulsos de Ivy Marãey. – A criatura era apenas sombras, mas sua voz chegava até minha mente.

— Me diga seu nome – eu exigi.

— Sou Anhaú, a entidade nascida no momento que a Luz Primordial se revelou. Sou a Sombra do Princípio e soberano destas terras.

— Não lutei contra meus irmãos para acabar sendo comandado por outra divindade.

— E não será, Angelo Apostatico. Acalme-se. Sei do amor que tem pela Criação, e posso oferecer ela a você.

— Com apenas uma palavra o Criador me baniu.

— Pois ainda não possui o exército certo para reivindicar o que tanto ama. Também estou em exílio, mas não por muito tempo. Veja Lilith, a primeira mulher, é minha esposa e já gerou tantos filhos que em breve este lugar não será mais nossa morada. Com a força das minhas crias, sairemos daqui e poderemos tomar a Criação.

— Parece que já possui um plano, não acredito que eu me encaixe neles.

— Ora, ora, Angelo Apostatico. Você é peça fundamental. Sua coragem, determinação e liderança serão valorizados aqui. Ao meu lado, poderemos destruir o Criador e será você o soberano de todas as terras. E fico feliz por trazer tantos Celestes caídos para meus domínios. Sozinho eu não consigo sair deste exílio, mas pense o que poderemos fazer juntos.

Eu sorri diante da oferta. Anhaú era a ferramenta que eu precisava para concluir meus planos e salvar Ivy Marãey.

No abismo, os Angelos Apostaticos e eu permanecemos acompanhados pelas criaturas abissais. Passei dias apenas admirando Lilith, embora estivesse desfigurada, eu ainda lembrava de sua formosura enquanto caminhava por Ivy Marãey. Seu corpo podia estar quase em decomposição, mas havia algo no seu olhar.

***

Não demorei a descobrir que o algo rondando Ivy Marãey dito por Anhang era a presença de Anhaú, de alguma forma a Sombra Primária conseguia ver o que acontecia além do exílio no abismo. Ele me contou da construção da Ilha Flutuante, acima do monte, que serviria como morada de todos os Celestes e suas castas e da nomeação de Anhang como Príncipe da Cidade de Prata.

Quando o Criador após findar a criação e se transmutou em matéria, unindo-se ao Universo, Anhaú decidiu que era hora de agir, porém eu permaneci no exílio. Aquela ainda não era a hora para eu agir.

Anhaú se uniu a Samael, transformando-o em serpente e assim conseguiram sair do abismo. Samael conhecia os caminhos até Ivy Marãey e conseguiu entrar no monte sem ser notado. O que aconteceu em Ivy Marãey só foi descoberto por mim quando Buriti despertou, cansada de assistir pela segunda vez a destruição de tudo o que havia ajudado a criar. Samael, transformado em cobra desvirtuou todos os Rupaves e Sypaves e houve guerra entre as estatuas de barro e os Celestes. Buriti então gerou sete criaturas, os Neutros, responsáveis a partir daquele momento por restabelecer e zelar pelo equilíbrio ameaçado pelo novo conflito.

Buriti visando à sobrevivência dos mortais e de toda a Criação separou o mundo dos mortais do mundo dos seres fantásticos. Rasgando o tempo e o espaço criou duas dimensões. O Mundo Vivo – a Terra e o Astral.

No Astral, abissais e Celestes foram obrigados a coexistir na mesma dimensão, no solo profano e destruído se firmou o Reino do Caos, e nas ilhas flutuantes se estabeleceu o Reino da Ordem.

Os Angelos Apostaticos e eu permanecemos na dimensão chamada de Mundo Vivo, não havíamos participado da guerra acontecida em Ivy Marãey.

Assim, chegava o momento de eu agir.

***

Escondido na dimensão dos mortais, eu presenciei os homens Rupaves e mulheres Sypaves gerarem seus filhos e os povos surgirem por todo o Mundo Vivo. Vi Tau encontrar o portal aberto no Reino do Caos e tomar como esposa uma das filhas dos casais. Presenciei a criação de monstros híbridos e seu definhar, e aplaudi o sacrifício de uma mulher para salvar seus iguais.  Estive presente quando dois Rupave e Sypave fugiram com medo de serem mortos pelos monstros e foram tragadas para terras distantes, recomeçando a povoação.

Influenciei Caim matar Abel, e com o resquício da presença de Anhaú no Mundo Vivo converti a alma manchada pelo homicídio e amaldiçoei toda a sua prole.

Soube quando Gabriel encontrou um portal para o Mundo Vivo e vi a construção de Enoque e Atlântida, assim como a destruição das duas metrópoles e seus habitantes sobrenaturais em um diluvio comandado por Gabriel. Descobri o poder da alma dos mortais quando elas entravam no Astral, e naquele momento fiquei tentado a entrar no Reino do Caos, mas eu ainda precisava esperar pelo momento certo para agir no Mundo Vivo.

A Contenção foi criada, responsável por proteger o Mundo Vivo das investidas das criaturas do Astral.

Por séculos presenciei em silêncio a humanidade crescendo e expandindo seus domínios ao passo que o Véu da Realidade engrossava tornando a Contenção ainda maior, impedindo tanto Celestes quanto abissais de passar para a dimensão dos vivos. Embora os mortais estivessem a salvo dos demônios, cada vez mais ficando distantes do Criador, uma vez que não era possível se comunicar com os Celestes como outrora. Seguiam pela Criação totalmente sozinhos.

Esse era o momento para os Angelos Apostaticos e eu agirmos. Andei pelas cidades, aprendi a camuflar minha verdadeira formal e o Caos impregnado em minha essência começou a dominar o Mundo Vivo. Eu não queria reinar no Caos, meus domínios seria o Mundo Vivo. Eu merecia aquela dimensão.

Espíritos da Natureza e criaturas do Neutro foram corrompidas pelas minhas palavras. Se denominaram deuses dos humanos, pediam sacrifícios em seu nome e se tornavam fortes pela fé cega.

Meu único erro foi subestimar o Criador e sua capacidade de criar.

Por Rafael Sales

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