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Dimensão Contos – Relato da Criação[Parte 3]

PARTE 3

Foi por meio das canções, das pinturas nas pedras e das esculturas feitas de nuvens que eu toquei os mais sensíveis a minha causa. Muitos dos Celestes da casta de Scaenins reproduziram meu chamado de urgência. Para as outras castas, e até mesmo os meus quatro irmãos, eram apenas símbolos e arte, eles não conseguiam ver as intenções por de trás de cada traço. E eu contava com isso.

Por dias, mostrei aos adeptos o futuro de Ivy Marãey caso os Rupaves e Sypaves se multiplicassem sobre o monte. Revelei a fraqueza do Criador diante da sua criação. Incapaz de destruí-los, eles seriam o tumor responsável por aniquilar as belezas das florestas, dos riachos e de toda forma de vida animal.

Longe da vigilância dos outros Regentes me reuni com as falanges e decidimos o momento exato para colocar em prática nossa missão de salvar Ivy Marãey.

Marchamos prometendo aniquilar todos aqueles que pudessem destruir a Criação, e estávamos certo que o reinado do Criador devia ser encerrado. Eu era o mais capacitado para tal cargo de governança, eu era o portador da Luz, o guia, e nem mesmo Anhang poderia se interpor as minhas ordens quando eu assumisse o controle.

Os primeiros a serem destruídos seriam os quatro Regentes. Sem Miguel, Uriel, Rafael e Gabriel, as outras castas de Celestes me seguiriam sem questionar, com tamanha força celestial, destronar Anhang e o Criador seria apenas uma questão de dias.

Uma barreira de seres alados me protegia enquanto rascávamos o céu de Ivy Marãey. Pegos de surpresa, não houve tropa o suficiente para impedir nosso avanço. Da terra, os Rupaves e Sypaves apenas assistiam o céu tomado pela batalha celestial.

O mundo sentia o impacto das colisões das falanges de Celestes. Terremotos, enchentes e chuva ácida caiam sobre Ivy Marãey. Eu sabia que aquilo era necessário e que a Criação suportaria tal devastação, após isso, eu poderia reerguer e recuperar o mundo dos danos. Mesmo sofrendo ao ver tamanha destruição eu não poderia recuar. Estávamos ganhando a guerra que já durava dias.

Entretanto, Miguel e seus Arcanjos, os mais bravos e destemidos Celestes, conseguiram transpor a barreira ao meu redor. Destruíram com facilidade os Celestes que me protegiam. Os dias de conflitos foram suficientes para eles se reagruparem e traçarem uma estratégia capaz de acabar com minha investida.

Senti a mão impiedosa de Miguel sobre minha garganta, sua espada flamejante estava a centímetros do meu centro de energia, com apenas um movimento ele exterminaria minha existência. Rendido, os outros Celestes cessaram os ataques. Temiam o poder dos Arcanjos sobre as ordens de seu Regente.

— Não o destrua, Miguel – A voz do Criador ecoou por toda a Criação.

Em suas mãos, ele carregava as energias dos Celestes exterminados no combate.

— Pai, ele agiu contra a Criação. – disse Miguel furioso.

— Diferente de vocês, ele não entende a Criação, embora a ame.

— Como ele pode amar algo estando tão próximo de destruir?

— Não posso, Miguel, permitir que os Celestes continuem em guerra. O extermínio deve parar. Veja o quanto Ivy Marãey sofre com isso. As intenções do seu irmão foram nobres, mas até no ato mais nobre há consequências. E a linha da justiça e da tirania é tão tênue que ultrapassamos sem nos darmos conta.

— Você entregou Ivy Marãey para criaturas que acabaram com ela – vociferei.

— Entenda, Celeste. Nem todos os Rupaves e Sypaves seguirão pelos caminhos corretos da Criação. E é isto que eu espero deles. Vocês, Celestes, já nasceram com um único propósito, são perfeitos. Mas eu quis doar a imperfeição às novas criações. Existe um ciclo que você não compreende, um ciclo pelo qual até os Celestes fazem parte. Mas somente os descendentes dos Rupaves e Sypaves poderão desfrutar. Existem coisas que eles descobrirão e vocês definhariam se soubessem; sentimentos, consequências e escolhas. Tudo isto está ligado ao equilíbrio. Longe de Ivy Marãey outras forças nascem e se multiplicam e chegará a hora que tais forças colidirão na Criação. Tudo no mundo é dual, meu surgimento acarretou no despertar de outra entidade de poder equivalente. Sem os Rupaves e Sypaves, a Criação entraria em um colapso e na provável extinção. Eles são responsáveis por manter a Criação. Serão as escolhas deles que nos farão mais ou menos fortes. Serão eles que ditaram o destino. E sempre foi para eles que eu despertei.

Como pode atrelar a nossa existência a criaturas feitas de barro?

— Não somente barro, neles há uma centelha de minha própria existência. E você, querido e amado filho, será a peça mais importante em toda a Criação. Você será o divisor entre o bem e o mal que surgirá. Você, será o que eu não fui criado para fazer. Mesmo não compreendendo, todas as decisões aqui tomadas foram aprovadas por mim, pois eu sei que o equilíbrio necessidade de elementos duais para existir. E sem equilíbrio, nada mais existirá.

— E se os Rupaves e Sypaves se destruírem, você será o responsável por todas as mortes que mancharam a Criação?

— Eu sempre serei uma das escolhas, e como disse, é tênue a linha entre a justiça e a tirania, e não sou tirano. Até mesmo você pode escolher o que e por qual motivo lutar. E você fez sua escolha, Celeste Portador da Luz.

— Um comando, Pai, e ele deixará de existir. – Miguel estava impaciente.

— Darei sim, um comando, mas não de extermínio, mas sim de existência. O Regente dos Scaenins, o Celeste criado a partir das asas de Anhang deverá sobreviver, mas não entre os irmãos, assim como todos os adeptos de sua causa. Vocês estão banidos de Ivy Marãey.

As palavras do Criador agiram como uma tempestade sobre nós, sentimos nossos corpos serem arrastados para longe do monte. A Grande Árvore tornava-se cada vez mais distante, e o céu ocupado por Celestes tornava-se um borrão.


Essa foi a parte 3 de Relato da Criação. Aqui, a história vai ganhando corpo e, cada vez mais, nossa atenção se prende às linhas escritas pelo Rafael Sales. Semana que vem tem mais!

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