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Dimensão Contos – Relato da Criação [Parte 2]

Aos poucos eu assisti Adamá definhar, já não tinha mais força para caçar ou comer. Seus filhos, netos e descendentes o buscavam para serem aconselhados e encontravam somente os lamentos e gemidos do antigo ditador. Aos pés de Buriti, Adamá suplicou para que a dor parasse e encontrou a solução tirando sua própria vida enterrando uma estaca de madeira no coração. Anhang, transmutado em alma, foi expelido pela boca do homem e se juntou ao Criador, implorou perdão e permaneceu ao seu lado, envergonhado pelos atos de Adamá. O sangue manchou as raízes de Buriti que desde então nunca mais emitiu um único som em Ivy Marãey.

Eu nunca duvidei do fracasso de Anhang. Eu deveria ter sido o escolhido para preencher a estátua de barro.

Incapacitado de destruir, O Criador chorou pela segunda vez, suas lágrimas caíram sobre Ivy Marãey como uma chuva torrencial durante três longos dias. Anhang por sua vez, se sentiu na obrigação de salvar os descendentes de Adamá que caiam em desgraça, ainda influenciados pelos ensinamentos do homem. Durante a tempestade Anhang sobrevoou as aldeias e tocou em cada homem, mulher e criança, os ascendendo as alturas como Celestes, pois sabiam que assim eles seriam úteis na criação.

Assim como prometi guiar e aconselhar Adamá, eu tomei como responsabilidade todos os transformados em Celestes sob a casta de Scaenins. Eu e todos os meus outros quatro irmãos nos tornamos Regentes das castas surgidas. Com a ajuda dos Espíritos da Natureza eu ensinei a música e as artes e juntos preenchemos Ivy Marãey com beleza, cores, formas e sons celestiais.

Mas a Criação, sem Adamá, Lilith e todos os gerados do casal, estava incompleta. Podia ver que já não havia o mesmo resplendor quando o Criador lançava seus olhos sobre Ivy Marãey e assim como eu tive ajuda, o Criador também recorreu aos Espíritos da Natureza e desta união surgiram os sete homens chamados de Rupave e as sete mulheres chamadas de Sypave.

Porém eu não consegui amar os Rupaves e Sypaves do mesmo modo como amei Adamá e todos que dele foram gerados. A Criação não suportaria outra decepção, outro pranto descontrolado do Criador. Ele colocava em risco tudo o que ajudara a construir. Eu não poderia permitir que aquelas criações caminhassem pelas mesmas trilhas seguidas por Adamá. Anhang já se mostrara incapaz de guiar um povo, e cometeria o mesmo erro.

— Vejam, nosso Pai persisti no erro de criar homens e mulheres para povoar Ivy Marãey, não percebe que não precisamos de mais nada além do que já temos? – Eu falava com os primeiros Celestes junto com Anhang reunidos em um dos muitos lugares desabitados do vale.

— Ousa confrontar as decisões do nosso Pai? – Miguel questionou furioso.

— O Criador tem o propósito de criar, e ele continuará seguindo seu desígnio sem se importar com as consequências. Nós temos a missão de proteger estas terras, e por isso devemos eliminar os Rupaves e Sypaves antes que se multipliquem.

— Apenas esquece, irmão, que o Criador possui ao seu lado Buriti, uma sábia entidade que já estava aqui antes mesmo de sermos criados – disse Uriel.

— Buriti esteve ao meu lado quando aconselhei exterminar Adamá. – Olhei para Anhang, mas ele não se demonstrou surpreso com a revelação. – Porém, algo dito pelo Criador convenceu a Grande Árvore em não seguir com meus conselhos.

— Olhe para o céu, irmão – falou Anhang. – Veja quantos Celestes foram ascendidos. Na época que eu ocupava o corpo de Adamá, quando me tornei sua alma, existiam apenas vocês cinco. Não digo que não houve esforços para guiar Adamá, Lilith e seus filhos, mas agora temos mais asas no céu do que espaço para ocupar. Somos vigilantes e eu estou no comando de todas as castas. Com a liderança de vocês, podemos triunfar e prosseguir na Criação.

— Você falhou com Adamá, Anhag – eu lembrei o primeiro Celeste. – Deixou Lilith fugir e desaparecer além dos limites de Ivy Marãey. Como posso confiar em sua liderança quando já se mostrou incapaz disso?

— Não me orgulho do destino de Adamá. Mas existe algo rondando Ivy Marãey. Uma presença tão antiga quanto o Criador. Me senti impotente quando vozes chegaram até Adamá e suas ordens foram mais tentadoras do que os conselhos dados por vocês.

— Se de fato existe algo, o que garante que os Rupaves e Sypaves não serão desvirtuados por tais vozes?

— Pois eu estou aqui.

— Eu sei do acordo firmado entre você e o Criador. Não poderá interferir nas decisões dos povos.

— Conheço minhas novas limitações, irmão, não preciso de você para lembrá-las. E também não preciso repetir que o meu feito garante a proteção dos sete casais.

— Vocês estão de acordo com Anhang? Assumirão os riscos de povoar a Criação com criaturas que podem dar ouvidos a algo rondando Ivy Marãey?

— Sabemos o quanto ama a Criação, irmão – Rafael tocou em meu ombro. – Mas precisamos respeitar a decisão do nosso Pai. E mesmo que não seja possível para nós compreender a necessidade das novas vidas em Ivy Marãey, surgimos com a missão de proteger tudo o que existe. E agora, Rupaves e Sypaves existem, além do mais Anhang está conosco agora. Tudo será diferente.

— Compartilhe sua música com eles, irmão – Uriel aconselhava. – Ensine o dom da arte e acalante seus espíritos com suas habilidades. Desde que os Scaenins tomaram os céus, os dias em Ivy Marãey são mais alegres. Expanda tal alegria também por estas terras.

— Eles serão incapazes de aprender – rebati.

— Não subestime as criaturas nascidas do barro sob Buriti com ajuda dos Espíritos da Natureza. – dizia Rafael. – Posso ver neles uma capacidade que mesmo nós, Celestes, não possuímos. Eles são passiveis de evolução, e farão com nossa ajuda.

— Se quer proteger Ivy Marãey – prosseguiu Miguel que apenas ouvia impaciente todo o debate. – Cuide daqueles que agora fazem parte da Criação. Se dedique a eles como se dedicou a Adamá.

Não tinha escolhas a não ser seguir meus irmãos.

Pelo menos naquele momento.

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