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Dimensão Contos – Relato da Criação [Parte 1]

PARTE I

Poucas foram as vezes que o Criador chorou e, na primeira vez, uma lágrima foi lançada ao Universo, e dela surgiu uma criatura de membros translúcidos desprovida de consciência e vida. Tomando aquela criação espontânea na palma da mão, o Criador o nomeou de Anhang, agraciando-o com o tom da existência e o presenteando com três pares de asas a fim de ajudá-lo na Criação. Anhang ergueu voo e de suas asas desprenderam-se cinco penas cristalinas. Envolvidas pela energia pulsante e benevolente que emanava do Criador, as penas assumiram a forma de corpos diáfanos, semelhantes a Anhang, porém com apenas dois pares de asas. Assim como fez com Anhang, o Criador soprou cinco nomes e as criaturas tornaram-se conscientes.

Nasciam os primeiros Celestes, entre eles, eu.

Percorremos o Universo e presenciamos o nascimento das constelações, dos planetas e da incrível dança da matéria ao redor da esfera flamejante no centro da Criação. Porém, não havia tanta beleza quando visto de perto, os terrenos eram rochosos, áridos cinza e sem vida.

“Veja, Pai! Naquele planeta”, Gabriel apontava para um planeta recém-criado, nos mostrando um brilho esverdeado e tímido no alto da maior montanha do vale.

A luz vinha de um pequeno ser adormecido de pele amarronzada. O Criador então sussurrou um nome no que parecia os ouvidos da criatura; Buriti.

A pequena criatura reagiu ao nome e cresceu, assumindo a aparência de uma árvore gigante de tronco forte e galhos robustos. Suas raízes saltaram da terra cobrindo a montanha e se perdendo no horizonte dando origem a vegetação, as matas e florestas. Ivy Marãey – A Terra Sem Mal, estava criada.

Entretanto, a bola de fogo no céu ameaçava destruir a recém-criação, se expandindo no Universo. Buriti, por sua vez, fez uma de suas folhas cair sobre o colo do Criador e nela havia um nome: Guaraci – O Sol. De posse do nome da esfera flamejante, O Criador pôde compreender a sua existência e o designou a comandar os dias. Para Guaraci poder descansar e também compartilhar da Criação, O Criador pediu mais uma folha a Buriti e nessa estava escrito o nome de Jaci – A Lua, e a ela foi dada a noite e as estrelas, e ambos reinariam em harmonia na abóboda do novo mundo.

Guaraci e Jaci, então, lançaram um manto de nuvens em agradecimento a Buriti por ajudar em seu nascimento e deste manto veio a chuva em abundância. Guiado pelos conselhos de Buriti e por sua divina sabedoria, o Criador determinou os limites da terra e de água, gerando as ilhas, continentes, mares, lagos, rios e oceanos.

Com a natureza construída, O Criador, então, começou a recitar uma espécie de mantra que mais parecia uma sequência interminável de trovões rasgando o céu, a cada palavra proferida surgiam aos pares animais e insetos que povoariam os céus, as águas e as extensões de terra.

Com a chuva em seus galhos, Buriti floresceu e em cada flor havia um nome, O Criador leu cada um deles e colocou uma centelha de sua própria energia em cada flor, meus irmãos e eu recebemos algumas e partirmos em direções opostas a pedido do Criador. Fui o mais longe que consegui, era revigorante voar sobre a Criação e não mais planar na vastidão do Universo gelado. Eu lançava as flores pelos campos e vales, seguindo uma espécie de intuição ou chamado, quando soltei a última vi o Espirito da Natureza surgindo, e naquele momento soube que naquelas flores estavam entidades responsáveis por guiar os diversos povos que o Criador, em sua divina sabedoria, sabia que surgiriam.

Mal toquei o solo e Buriti me entregou uma semente de luz, assim eu seria o portador da claridade e deveria guiar meus irmãos Celestes.

Mas, talvez naquele momento, Buriti não sabia que nenhum dos meus irmãos me seguiriam quando eu decidisse agir.

Eu era o portador da luz, afinal, mas isso não significou muita coisa quando o Criador decidiu transmutar Anhang em alma o soprando para dentro da estátua de barro. De todas as Criações, aquela sem dúvida era a mais exuberante. Adamá era seu nome e seu caminhar era impreciso e as palavras incompreensíveis, olhava tudo ao redor com admiração verdadeira, era tão frágil e tão belo na mesma proporção. Mesmo com Anhang construindo sua alma, eu me ofereci para apresentar Ivy Marãey a ele e guiá-lo enquanto vivesse.

E como tudo no planeta havia sido gerado em pares, O Criador junto a Buriti moldaram mais uma escultura, semelhante a imagem lapidada no tronco da Grande Árvore, e esta foi chamada de mulher e recebeu o nome de Lilith. Pura e inocente, aprendeu a falar com os animais e reconheceu que cada elemento da natureza era guiado por um Espírito da Natureza. Aprendeu o nome de cada um e ajudou Adamá a preservar a criação e cultivar as riquezas do monte Ivy Marãey.

Porém, Adamá se distanciou de mim. Por vezes tentei aconselhá-lo, mas minhas palavras já não surtiam efeito. Ao passo que Ivy Marãey era povoado, Adamá se tornava tirano e isto acabaria com a Criação. Tantas vezes recorri ao Criador pedindo para destruir aquela Criação. Embora eu amasse Adamá, odiava vê-lo entregue a sentimentos que não deveriam existir na Terra Sem Mal, porém parecia existir algo impedindo o Criador de exterminar Adamá. A princípio tive o apoio de Buriti, mas logo ela foi convencida pela “grande sabedoria e paciência” do Criador. Do que serviria ser o guia, se ninguém ouvia meus conselhos?

Eu vi quando Lilith se rebelou diante do reinado de medo, grávida, ela fugiu de Ivy Marãey. Eu poderia impedir, mas decidi não fazer, pois eu sabia, de alguma forma, que a partida da mulher acabaria fazendo Adamá sofrer.

E eu estava certo.


NOTA DO AUTOR Rafael Sales.

Muitos acontecimentos de “Relato da Criação” foram citados pela ótica de Heylel, mas podem ser conferidos na íntegra no volume bônus da série Silhuetas na Penumbra na plataforma online Wattpad. Link: https://www.wattpad.com/list/31186302-srie-silhuetas-na-penumbra

A série Silhuetas na Penumbra é composta pelos títulos:

– Ritos da Criação (Volume Bônus)

– Círculo de Folhas (Exclusivo para o LuvBook)

– Ambições Celestes (1º conto da série)

– O Primeiro Alvorecer (2º conto da série)

– Legado Proibido (3° conto da série)

– Promessa de Heylel (4° conto da série)

– Garras e Pétalas (5° conto da série)

– Elos de Sangue (6° conto da série)

– Sacrifício ao Fogo (7° conto da série)

– Não Sou um Pedaço (Antologia “Amor Sem Limites” – Editora Arkanus)

– Ciclo Eterno (8º e último conto da série)

– Ciclo das Eras (Antologia “Contos da Floresta” – Editora Wish)

 

Em “Relato da Criação” você poderá compreender melhor os eventos que antecedem a maldição lançada sobre Elisa Adágio e sua origem, e se preparar para o lançamento de “Semente de Âmbar” pela editora PenDragon, onde todos os contos disponíveis servem de pano de fundo para o enredo principal da série, apresentando o passado de cada um dos personagens.

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